segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O Canto Noturno

É noite: falam mais alto, agora, todas as fontes borbulhantes. E também a minha alma é uma fonte borbulhante.
É noite: somente agora despertam todos os cantos dos que amam. E também a minha alma é o canto de quem ama.
Há qualquer coisa insaciada, insaciável, em mim; e quer erguer a voz. Um anseio de amor, há em mim, que fala a própria linguagem do amor.
Eu sou luz; ah, fosse eu noite! Mas está é minha solidão: que estou circundado de luz.
Ah, fosse eu escuro e noturno! Como desejaria sugar os seios da luz!
E até vós desejaria abençoar, pequenos astros cintilantes e vagalumes, lá no alto! - e ser feliz com as vossas dádivas de luz.
Mas eu vivo na minha própria luz, sorvo de volta em mim as chamas que de mim rompem.
Não conheço a felicidade dos que recebem; e muitas vezes sonhei que roubar deve ser ventura ainda maior que receber.
É esta a minha probeza: que minha mão nunca para de dar presentes; é esta a minha inveja;que vejo olhos à espera e as noites iluminadas do anseio.
Ó desventura de todos os dadivosos! Ó obscurecimento do meu sol! Ó desejo de desejar! Ó fome insaciável na saciedade!
Eles recebem os meus presentes; mas tocarei ainda a sua alma? Há um abismo entre dar e receber; e também o menor dos abismos precisa ser transposto.
Nasce uma fome da minha beleza: desejaria magoar aqueles que ilumino; desejaria roubar aqueles que presenteio; assim tenho fome de maldade.
Retirar a mão, quando já a outra mão se lhe estende; hesitar como a cachoeira, que ainda hesita ao precipitar-se: assim tenho fome de maldade.
Tal vingança medita minha plenitude; tal perfídia brota da minha solidão.
Minha ventura em dar extinguiu-se ao dar, minha virtude cansou-se de si mesma pela sua superabundância!
Quem sempre dá, corre o perigo de perder o pudor; quem sempre reparte, cria calos, de tanto repartir, em suas mãos e coração.
Meus olhos não choram mais ante o pudor dos pedintes; demasiado endureceu min has mãos, para sentir o tremor das mãos satisfeitas.
Para onde foram as lágrimas dos meus olhos e o frouxel do meu coração? Ó solidão de todos os dadivosos! Ó silêncio de todos os que espargem a luz!
Muitos sóis gravitam nos espaços vazios; falam, com sua luz, a tudo o que é escuro - comigo, silenciam.
Oh, essa é a hostilidade da luz por tudo o que é luminoso: implacável percorre ela sua órbita.
Injusto, no fundo do seu coração, com tudo o que é luminoso; frio para com os outros sóis - assim segue, cada sol, o seu próprio caminho.
Como uma tempestade, percorrem os sóis, velozmente, suas órbitas: é esse o seu curso. Seguem, inexoráveis, a sua vontade: é essa a sua frieza.
Ó seres escuros, noturno, somente vós criais o calor, haurindo-os dos corpos luminosos! Somente vós bebeis o leite e o bálsamo dos ubres da luz!
Ah, há gelo em volta de mim, queima-se minha mão tocando em gelo! Ah, há uma sede, em mim, que almeja a vossa sede!
É noite; ai de mim, que tenho que ser luz! E sede do que é noturno. E solidão!
É noite: como uma nascente, rompe em mim, agora, o meu desejo - e pede-me que fale.
É noite: falam mais alto, agora, todas as fontes borbulhantes. E também a minha alma é uma fonte borbulhante.
É noite: somente agora despertam todos os cantos dos que amam. E também a minha alma é o canto de quem ama.
Assim falou Zaratrusta.

Trecho do livro "Assim falou Zaratrusta" de Friedrich W. Nietzsche

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