domingo, 3 de julho de 2011

Consciência sem limites

A pesquisa da mente atinge o ponto onde a ciência encontra a espiritualidade
Por José Tadeu Arantes


Portal dos Anjos e das Estrlas de Avalon



Quando se fala em pesquisa da consciência, o primeiro nome a ser lembrado é o de Stanislav Grof. Nenhum cientista tem feito mais na área do que esse psiquiatra checo radicado nos Estados Unidos (leia o artigo "Nas fronteiras da consciência", em GLOBO CIÊNCIA nº 32). Ao longo de quatro décadas de investigações sistemáticas, ele acompanhou dezenas de milhares de indivíduos, de diferentes meios culturais e crenças, que tiveram acesso ao que chamou de "estados inusuais de consciência". "As experiências psíquicas vividas nessas condições desafiam a visão de mundo materialista e compõem um quadro que coincide com os ensinamentos das antigas tradições espirituais", declarou Grof a Galileu. Ele próprio apresentou esse quadro numa série de livros, especialmente em O Jogo Cósmico, recém-lançado no Brasil.

Segundo o pesquisador, a psique atua de dois modos diametralmente opostos. Recorrendo a uma analogia simplista, mas útil para a compreensão do fenômeno, pode-se dizer que ela possui um dispositivo interno que funciona de modo semelhante a um interruptor de corrente elétrica. Quando giramos a chave para um lado, a consciência se restringe, tornando-se focalizada, analítica, atenta aos detalhes. Essa é a posição com a qual operamos usualmente em nosso dia-a-dia. Ela nos leva a ver a realidade como um conjunto de eventos, que ocorrem no espaço tridimensional e se sucedem num tempo linear. E, por exemplo, nos permite atravessar uma rua movimentada sem sermos atropelados e calcular, com alguma chance de sucesso, o entra-e-sai de dinheiro em nossa conta bancária. Grof a chama de hilotrópica, palavra derivada dos termos gregos hyle (matéria) e trepein (mover-se em direção a).

Até aqui, nenhuma novidade. Quando giramos a chave para o outro lado, porém, a situação se altera de maneira radical. A consciência liberta-se das amarras do espaço-tempo, da identificação restritiva com o corpo físico e o ego racional e expande-se indefinidamente. Caem as barreiras entre o "eu" e o "outro", entre o "aqui" e o "ali", entre o "antes" e o "depois". A consciência passa a englobar domínios cada vez mais amplos da realidade. No limite, ela abarca toda a criação e pode até mesmo identificar-se com o Criador. Esse é o estado no qual surgem as grandes inspirações artísticas, científicas e filosóficas, a iluminação mística e os dons proféticos. Grof o chama de holotrópico, do grego holos (todo) e trepein (mover-se em direção a).

Ursos poderosos

Parece fantástico. Mas, como demonstrou de maneira exaustiva a pesquisa de Grof, os estados holotrópicos, ou inusuais, são potencialmente acessíveis a todo ser humano. Eles hibernam como ursos poderosos nas cavernas da psique. E tendem a despertar pelos mais variados motivos. Podem irromper fugaz e espontaneamente em meio às atividades cotidianas, provocados pela visão de um céu estrelado, pela audição de um concerto de Bach ou pela leitura de um verso de William Blake, por exemplo. Podem ser metodicamente preparados, desencadeados e estabilizados por meio de rigorosas disciplinas espirituais, como as iogas indianas. Podem ser temporariamente induzidos por substâncias psicoativas e técnicas de forte impacto, como a "respiração holotrópica", desenvolvida por Grof e sua mulher Christina (leia quadro).

Qual é a visão de realidade oferecida pelos estados holotrópicos?
Para começar, o universo material deixa de ser visto como uma coleção de objetos separados, relacionados uns com os outros por meio de forças externas e cegas. Ele passa a ser percebido, ao contrário, como uma totalidade inseparável e orgânica. "Nosso universo, que parece englobar um número incontável de entidades e elementos diferentes, apresenta-se, então, como um único ser, de imensas proporções e complexidade inimaginável", explica Grof. Igual a um tapete contínuo, é impossível puxar uma de suas pontas sem balançar todas as demais. E não se trata de um tapete comum, mas do famoso tapete mágico dos contos de As Mil e Uma Noites, pois a percepção que se tem do universo é a de um ser vivo, impregnado de consciência em todos os seus níveis.

Grof e seus colaboradores recolheram centenas de relatos de indivíduos que, em estado holotrópico, sentiram-se identificados com animais, vegetais ou minerais. Todos esses entes, inclusive aqueles supostamente inanimados, pareciam-lhes dotados de consciência, que adquiria, em cada caso, um matiz específico. Tais experiências poderiam ser rotuladas como meras fantasias ou alucinações, não fosse pelo fato de que esses episódios proporcionaram, às pessoas envolvidas, informações detalhadas - e previamente desconhecidas - sobre os entes com os quais haviam sintonizado. A identificação consciente com plantas, por exemplo, traduziu-se em vislumbres surpreendentemente precisos de processos botânicos, como germinação de sementes, trânsito de água e minerai
s nas raízes, fotossíntese e polinização.

A Teoria do Centésimo Macaco

O livro Lifetide: The Biology of de Unconscious de Lyall Watson,trata de um projeto de pesquisa científica de 30 anos sobre o macaco japonês Macaca fuscata. A ilha de Koshima, no Japão, tem uma colônia selvagem, e os cientístas forneciam aos macacos batatas doces atiradas na areia. Os macacos gostavam das batatas doces, mas não da areia. Uma fêmea de 18 meses de idade a quem chamaram de Imo descobriu que poderia resolver o problema lavando as batatas.

Ela ensinou o truque para a mãe. As suas colegas também aprenderam esse novo procedimento e também ensinaram às mães. Em pouco tempo, todos os macacos jovens lavavam as suas batatas doces, mas apenas os adultos que imitavam os filhos aprenderam esse comportamento. Esses cientistas registraram esse comportamento entre 1952 e 1958.

Então, de repente, quase no fim do ano de 1958, alguns macacos que agiam dessa maneira na ilha de Koshima atingiram uma massa crítica, que o Dr. Watson arbitrariamente calculou em cem, e pronto! - quase todos os macacos da ilha começaram a lavar suas batatas sem interferência nenhuma.

Se aquilo tivesse acontecido apenas naquela ilha, eles provavelmente teriam imaginado que havia algum tipo de comunicação e procurariam compreendê-lo. Mas simultaneamente os macacos das ilhas vizinhas também começaram a lavar as batatas. Não havia um meio possível de aqueles macacos terem se comunicado de alguma maneira que conhecemos. Foi a primeira vez na vida que os cientistas observaram algo parecido. Eles postularam que devia existir algum tipo de estrutura ou campo morfogenético que se estendia por todas as ilhas e pelo qual os macacos seriam capazes de se comunicar.

Não houve nenhuma comunicação convencional entre as duas populações: o conhecimento simplesmente se incorporou aos hábitos da espécie.

Essa pesquisa ilustra uma das mais ousadas e instigantes idéias científicas da atualidade: a hipótese dos "campos mórficos", proposta pelo biólogo inglês Rupert Sheldrake, autor do livro A New Science of Life (Uma nova ciência da vida). Segundo o cientista, os campos mórficos são estruturas que se estendem no espaço-tempo e moldam a forma e o comportamento de todos os sistemas do mundo material.

Átomos, moléculas, cristais, organelas, células, tecidos, órgãos, organismos, sociedades, ecossistemas, sistemas planetários, sistemas solares, galáxias: cada uma dessas entidades estaria associada a um campo mórfico específico. São eles que fazem com que um sistema seja um sistema, isto é, uma totalidade articulada e não um mero ajuntamento de partes.

É isso que nos mostra o exemplo dos macacos. Nele, o conhecimento adquirido por um conjunto de indivíduos agrega-se ao patrimônio coletivo, provocando um acréscimo de consciência que passa a ser compartilhado por toda a espécie.

O processo responsável por essa coletivização da informação foi batizado por Sheldrake com o nome de "ressonância mórfica". Por meio dela, as informações se propagam no interior do campo mórfico, alimentando uma espécie de memória coletiva.

"A ressonância mórfica tende a reforçar qualquer padrão repetitivo, seja ele bom ou mau", afirmou Sheldrake a Galileu. "Por isso, cada um de nós é mais responsável do que imagina. Pois nossas ações podem influenciar os outros e serem repetidas".

Trecho extraído do livro "O Antigo Segredo da Flor da Vida" de Drunvalo Melquizedeck, e Revista Galileu nº 91